Criei esse blog pra manter vocês, minhas saudades, devidamente atualizadas sobre o que passa por aqui e, de quebra, tentar me sentir mais próxima, mesmo com um oceano infinito de distância entre eu e o que considerava ser o MEU mundo.
Mas agora lhes peço licença para escrever um pouco pra mim mesma, porque o que vou escrever aqui não é nenhum fato novo, sobre um professor excelente, uma aula monótona, uma viagem ou coisa que o valha... o que aconteceu hoje não fez a menor diferença no mundo exterior. Mas fez pra mim. Muita. E simplesmente sinto que PRECISO escrever, desabafar, devanear.
Ao contrário da maioria das pessoas, sempre gostei de domingos... e hoje percebo que isso se deve ao fato - e à sorte - de possuir uma família maravilhosa, um lar harmonioso e, em síntese - e super correndo o risco de ser clichê e piegas - uma vida que, em síntese, posso definir como boa, feliz. Então o odiado tédio de domingo não costumava ser problema pra mim... pois ficar em casa, assistindo filmes ou fazendo qualquer coisa dentro do meu LAR, me bastava, satisfazia o meu ser e preenchia um pedaço de mim que, confesso, nem sabia que existia. Daí vim pro outro lado do mundo morar sozinha... e então, sim, o domingo passou a ser um problema. Não que todos os meus domingos aqui sejam assim, mas o de ontem foi especialmente chato pra mim... saudade apertou por demais e dei meu melhor pra não pirar completamente (é, surtei só uns 50% do dia ~ uma percentagem excelente para um domingo away, né?).
Enfim, hoje acordei meio gripada, com a persistante e semi-costumeira dor de garganta e eis que lembrei que a mensalidade da faculdade vencia no dia 31 de outubro... isto é, ONTEM. Tudo bem que era domingo, então imaginei que não teria problema pagar no primeiro dia útil subsequente, então me arrumei rápido, fui sacar dinheiro para realizar o dito pagamento e peguei um táxi para a Faculdade, pois já eram 16horas e não sabia o horário de funcionamento da tesouraria, então fiquei com medo do ônibus demorar e tal.
Daí chego lá e, voilà, pátio da faculdade surpreendentemente deserto, só com os habituais turistas batendo foto e falando francês ao meu redor. Departamento financeiro ~ fechado. Droga, vai ver só funcionava até as 4. Lembrei, então, que queria consultar alguns livros na biblioteca e, pra não perder a viagem, aproveitei para fazê-lo. Biblioteca ~ fechada. Tá, essa eu sei que funciona até as 17h30, então, oi? O que está acontecendo com o mundo? Foi aí que descobri que em Portugal é feriado em primeiro de novembro e então tudo fez sentido, né? Ou seja, havia saído de casa com dor de garganta, apressada, gastando táxi (!!!)... por nada. Saí da faculdade, sentei no ponto de ônibus me amaldiçoando ad eternum e, como não tinha o que fazer enquanto esperava, liguei o ipod ~ e foi aí que meu dia realmente começou.
Liguei no modo aleatório e então começou a tocar Patience. Essa música sempre teve o dom de me acalmar, me transmitir paz... e pensei Quer saber? Não tenho nada pra fazer mesmo e, com Guns como companhia, quem precisa de ônibus? Já havia percorrido aqueles caminhos dezenas de vezes, mas sempre acompanhada das meninas... e apenas hoje, caminhando sozinha e sem pressa, consegui me entender melhor, entender melhor o que estou vivendo aqui.
Só se sente saudade daquilo que é bom, daquilo que nos faz sorrir, que nos traz paz ao coração... e então percebi o que agora me parece um tanto óbvio: que sentir saudade da minha vida do Brasil é muito muito bom, pois significa que, mesmo a um oceano de distância, vivendo num lugar lindo, com toda a liberdade do mundo, pessoas incríveis e experiências únicas, a minha vida lá era plena e abençoada. E, o melhor? Percebi que não preciso escolher. Que graças aos meus pais e ao meu bom Deus, posso ter os dois. Minha vida lá, continua lá, oras. E ainda tenho a chance de viver uma experiência aqui, que acho que não seria exagero chamar de sonho, seria? Bem, percebi que pra mim é sonho sim.
Começou, então, a tocar Time of Your Life e, se isso fosse um filme, certamente seria "o momento em que ela percebeu a sorte que tem". Sem a menor arrogância/prepotência - até porque, se buscarmos de verdade, certeza que todo mundo tem motivos pra se sentir assim - me senti uma pessoa de muita - MUITA - sorte. Sorte por ter essa chance maravilhosa de fazer mestrado num continente que transpira cultura e conhecimento; sorte por poder caminhar por ruas cheias de história; sorte em poder ver cotidianamente essa paisagem sépia, arquitetura antiga e única, cujos tijolos guardam memórias seculares; sorte por ver cair as folhas do outono, com um ipod no ouvido e poucas preocupações na cabeça... e, principalmente, sorte em, mesmo vivendo tudo isso, ainda sentir saudade. Mas, dessa vez, uma saudade gostosa, misturada a um desejo de viver meus dias aqui, minha vida aqui, meus momentos aqui, por inteiro.
No caminho pra casa, passei em frente a uma igreja, como já havia passado tantas vezes. Mas, dessa vez, precisei entrar, ajoelhar, agradecer. Agradeci a Deus por me proporcionar essa experiência, agradeci pela minha família imperfeitamente perfeita - como toda família que se preze há de ser - e agradeci por vocês, meus amigos, meu Amor, meus anjos.
E como é bom sentir-se assim... em paz. ♥